Coisas de cá (vistas de lá)
"La Cancha Por NUNO RIBEIRO, MadridTerça-feira, 09 de Novembro de 2004
Chamam-lhe espelho da alma, traidor do racional, prova definitiva do que se pensa e sente mesmo que se queira disfarçar. Não há maquilhagem que lhe resista e, mesmo a pose mais estudada, soçobra à espontaneidade reveladora desses escassos segundos. É o gesto do que falamos e que, na bola, está omnipresente.
Marcar jogadas, comemorar golos e revelar surpresa é a aplicação normal do gesto no mundo do pontapé. A mais comum é a dos sinais arbitrais, através dos quais o homem do apito une o som à imagem e marca lei. Todos a sabem interpretar: dos técnicos ao público, passando pelos jogadores. Os artistas são também fãs do gesto. Quando fingem um penalti, o seu corpo cai na erva sem graça natural, como que quebrado, porque é mentira. Ou quando um defesa, com o contrário de rastos na relva, levanta as duas mãos em estado de inocência, está geralmente a dizer o contrário do que pretende. Ou seja, que deu. Por isso, e sem ser em directo ou com som, o futebol pode assemelhar-se a um imenso desfilar e grande representação de mimos, 22 em simultâneo, que gesticulam o contrário do que fazem. Porque, como um dia definiu o pontapé o grande observador Jorge Valdano, "o futebol é a arte da simulação".
O futebol de que falava Valdano era o das quatro linhas, interpretado por gente suada e sob pressão, feliz ou desesperada. O que, apesar de tudo, confere um carácter genuíno ao gesto, mesmo que este seja pura simulação e peça da arte do engano. Mas também há outros gestos no espectáculo. O mais genuíno é o do público, que se comove com o que vê e que deseja intervir: é este o segredo de polichinelo da comunicação entre a bancada e o relvado. E o gesto dos presidentes? Do largo esbracejar de Jesus Gil y Gil, do Atlético de Madrid, à pose napoléonica com que José Lluis Nuñez, do Barcelona, deixava que lhe retirassem o seu "lodan", passando pela mirada de contabilista de Florentino Pérez, do Real Madrid, o gesto é revelador da personalidade e consequência da ambição.
Por fim, os treinadores. Os cinco a zero que o Barcelona, então treinado por Johan Cruyft, despachou o Real Madrid, ficaram simbolizados na mão que o holandês abriu bem aberta. E que, anos mais tarde, mereceram idêntica comemoração de Jorge Valdano à frente do banco dos madridistas: uma retribuição entre cavalheiros com a picardia "qb" da bola. E, no último sábado, um novo gesto. O de Cláudio Ranieri, técnico do Valência, à sua chegada a Madrid para jogar, um dia depois, no Município vizinho de Getafe, com o clube local.
Já os jogadores e restante pessoal tinham abandonado o autocarro e procuravam o jantar e Ranieri permanecia sentado. Queria acabar de ver o filme que suavizou a viagem. No domingo, o Valência perdeu pela nona vez consecutiva e, na competição caseira, já caiu para o sétimo posto. No campo, com o Getafe, evidenciou confusão e tornou fictício o gesto de surpresa. Premonitório foi o gesto de Cláudio Ranieri à chegada."
http://jornal.publico.pt/2004/11/09/Desporto/D21.html

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