Blogazmus

Tuesday, November 23, 2004



"

O País da "Hola!" Por HELENA MATOSSábado, 20 de Novembro de 2004
Por razões profissionais tive, há alguns anos, de contactar vários correspondentes da RTP. Encontrei alguns absolutamente empenhados em fazer o melhor trabalho mas também deparei com situações em que os ditos correspondentes tinham um entendimento muito peculiar das suas funções: estavam sempre a assistir a uma conferência, a partir para um encontro ou a ouvir um discurso dos presidentes dos países onde eram correspondentes da RTP. Seriam certamente uns acervos de informação sobre os ditos países, mas unsacervos fechados sobre si mesmos. Durante semanas tentei descortinar, nos diversos canais da RTP, quaisquer peças da autoria dos ditos (in)correspondentes. Nunca vi nada. As únicas notícias que chegavam dessas paragens eram as das agências e as dos enviados especiais. Noutros casos, a informação que produziam só se distinguia daquela que era feita em Lisboa, a partir do material de agência, porque a carinha do dito correspondente aparecia a um canto. O seu desempenho tornou-se-me contudo mais claro esta semana quando percebi, durante a recente crise da RTP, que, por vezes, as administrações se substituem às direcções de informação na escolha dos correspondentes: administrar-se, e não informar, era de facto a vocação destes autodenominados correspondentes.
É certo que estes casos não serão a regra geral, mas espero que a recente crise na RTP, a propósito da escolha do correspondente em Espanha, sirva para que se valorize mais o trabalho dos correspondentes. Não faço a menor ideia de quem é a responsabilidade pela pouca informação que a RTP nos dá sobre Espanha, mas não deixa de ser perturbante o que não sabemos sobre o país vizinho. Além do imenso oceano, a Espanha é a nossa única fronteira. Nada do que ali acontece nos devia ser indiferente mas, em boa medida, restringimos o nosso interesse sobre a Espanha a um prolongamento da revista "Hola!": casamentos e baptizados reais, um atentado de maiores dimensões, um escândalo bem forte ou as últimas declarações dum artista.
Estamos informadíssimos sobre o sistema eleitoral norte-americano, mas ignoramos com uma inconsciência inexplicável as relações entre o poder central e as autonomias em Espanha.Essa inconsciência é tãoprofunda que nem sequer mereceu grande reparo, entre nós, que, durante a última Cimeira Hispano-Portuguesa, que teve lugar há mês e meio, Portugal tenha sido posto, pela Espanha, ao nível das suas regiões: Santana Lopes não se reuniu com Zapatero, reuniu-se com Zapatero e os presidentes das Comunidades Autónomas da Galiza, Castela e Leão, Extremadura e Andaluzia. Não está em causa a presença dos presidentes dessas comunidades na Cimeira. O que, até agora, nunca tinha acontecido é que esses presidentes fossem tratados como chefes de Governo. O assunto, em Portugal, não mereceu destaque - o que era isso ao pé do "caso Marcelo" em que então submergimos?! Da imprensa espanhola registe-se, para a posteridade, o remoque feito a Portugal, pelo jornal "El Mundo" na sua edição de 1 de Outubro: "A pesar de existir una organización territorial diferente entre Portugal y España, y la ausencia de interlocutores de las regiones españolas en el país vecino, Zapatero destacó que 'el conocimiento de problemas transfronterizos es enormemente importante en las relaciones bilaterales' de estas regiones con Portugal."À luz desta visão, Portugal é que peca por ausência de interlocutores directos com as comunidades autónomas espanholas. Logo, vamos a correr criar interlocutores para que Zapatero possa "gobernar en contacto con las Comunidades Autónomas" e rezar para que o próximo presidente do Governo espanhol não resolva trazer a uma futura cimeira os dirigentes de Ceuta e Melilla para que estabeleçam laços directos com o Algarve.
Infelizmente este não é o único caso do espírito "Hola!"na cobertura noticiosa sobre o país vizinho. O nosso Presidente da República não sóentendeu pronunciar-se sobre a situação interna portuguesa na ilha espanhola de Maiorca, onde participava no fórum Formentor - registe-se que, em Portugal, o Governo não caíra, não ocorrera nenhum atentado, a Assembleia da República não estava cercada, tratava-se sim do afastamento de Marcelo Rebelo de Sousa da TVI - como achou adequado para fundo das suas declarações um painel directamente inspirado naqueles que se exibem no final dos encontros de futebol, onde se reproduzia à exaustão o logotipo de uma importantíssima empresa espanhola. Ainda em Outubro, o folhetim noticioso hispano-luso teve mais um episódio quando, a convite de Jorge Sampaio, os reis de Espanha vieram visitar a barragem do Alqueva. Com que direito e em nome de quem é que a GNR apreendeu o cartaz exibido pelo membros do Fórum Olivença que defendem a devolução da localidade do mesmo nome a Portugal? Digamos que os membros do Fórum Olivença bem podiam fazer suas as palavras de Jorge Sampaio em Maiorca: a liberdade de expressão "é um assunto sobre o qual é necessário, de vez em quando, olhar outra vez". Eo rei Juan Carlos talvez tenha recordado, com bonomia, os membros do Fórum Olivença e os pressurosos GNR receosos de que o inócuo cartaz estragasse a sua visita a Portugal quando, semanas depois, no País Basco, ouviu o presidente do governo basco, Juan José Ibarretxe, formular o desejo de voltar a ter, nos municípios bascos, os membros do ilegalizado Batasuna. Ao contrário do que se poderá supor, a partir da pouca informação que em Portugal se faz sobre Espanha, o Batasuna e o seu líder, Arnaldo Otegui, não são perseguidos judicialmente por aquilo que pensam mas por aquilo que fazem. O Batasuna serviu de fachada legal à ETA, desempenhando um papel fundamental no seu financiamento.O silêncio que, em Portugal, se faz sobre a chantagem a que os nacionalismos submetem Espanha é um dos mais assombrosos vazios informativos dos últimos anos. É certo que a simpatia de que a ETA gozou anos a fio entre os jornalistas portugueses começou a esboroar-se quando as balas dos terroristas deixaram de atravessar as nucas dos polícias, militares, gentes do PP e cidadãos sem nada que os referenciasse e começaram a ceifar também a vida de socialistas e comunistas, tornando evidente o que gente como Savater denunciava há imenso tempo: os não nacionalistas são sujeitos em Espanha a toda uma série de violências e atropelos de que o terrorismo é apenas a face mais visível, mas não a única. Mesmo assim, em Portugal, mantém-se o mito dos nacionalistas como resistentes a uma opressão longeva.
E como explicar o pouco eco que teve, em Portugal, a recentíssima polémica em torno do valenciano? O líder catalão Carod-Rovira (exactamente o mesmo que, no ano passado, se encontrou com a ETA e negociou uma trégua separada para a Catalunha) fez depender a sua aprovação ao orçamento de Estado da declaração, por Zapatero, de que o valenciano não existe e de que em Valência se fala catalão. Quer o valenciano e o catalão se distingam ou não, a evolução dos nacionalismos em Espanha - de que a arrogância crescente de Rovira e a tolerância pragmática de Juan José Ibarretxe perante o Batasuna são um claro sintoma - não é um assunto indiferente para Portugal. Por exemplo, de que falamos, de facto, quando falamos hoje de mercados ibéricos ou de políticas transfronteiriças? Quem garante a Portugal que esses acordos não são desfeitos por uma das comunidades da Espanha?Um exemploeloquente: esta semana o Tribunal Constitucional Espanhol declarou que a gestão dos Parques Nacionais era uma competência exclusiva das Comunidades Autónomas. Como a natureza não se compadece com o precioso desenho das ditas comunidades, alguns parques serão divididos entre as diversas autonomias. Um deles, o dos Picos da Europa, será devidamente retalhado entre três comunidades autónomas. Aquele que é um dos mais emblemáticos espaços selvagens de Espanha e da Península Ibérica soçobra na voragem dos nacionalismos e da sua inexorávele asfixiante burocracia.
De Espanha não nos faltam notícias, nem ventos. O que nãoé aceitável éque tenhamos ficado reduzidos aos casamentos. Sobre estes últimos espero que corram bem. Pode ser que, a propósito dum baptizado real, se volte a perceber que só temos um Estado ao nosso lado. Por enquanto.
Jornalista
"

http://jornal.publico.pt/publico/2004/11/20/EspacoPublico/O02.html

0 Comments:

Post a Comment

<< Home